• Os top 10 dos meus 50 tops:

    MV Bill – Rapper / Rio de Janeiro:
    “É Nóis” – OBandO
    A quem possa interessar – Kamau
    Cachimbo da Paz – Gabriel O Pensador
    Confidências de uma presidiária – Visão de Rua
    Conselho – DJ Jamaika
    H.Aço – DMN
    Minha Cultura – Da Guedes
    Prostituta – Nega Gizza
    Sou Negrão – Rappin Hood
    Um bom lugar – Sabotage
    Voz Ativa – Racionais MC’s


    Japão – Rapper – DF:
    Paz Celestial – PMC e poetas de rua
    Sub Raça – Câmbio Negro
    Minha Alma – Dina Di
    Cada um por si – Sistema Negro
    Periferia segue sangrando – GOG
    Traficando Informação – Mv Bill
    Tá na Hora – Consciência Humana
    Triunfo – Emicida
    Us Guerreiros – Rappin Hood
    Fim de semana no parque – Racionais mc’s



    Mandrake - Rapper
    Visão de Rua - Irmã de Cela
    Racionais - Fórmula mágica da paz
    CxA - O show continua
    Filosofia de Rua - Histórias do coração
    Consciência Humana - Lembranças
    Mv Bill - Soldado do Morro
    RZO - O trêm
    Dexter - Eu sô função
    Realidade Cruel - Depoimento de um viciado
    Sabotage - A Cultura


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Rodrigo Felha e a polícia que não queremos

A relação entre policia e a comunidade em todo o Brasil, em particular a juventude no estado do Rio de Janeiro, carrega um histórico complexo, onde a tensão, a desconfiança e a relação contraditória entre necessidade e medo, permeiam a coexistência de ambos.

Está impregnado no imaginário das forcas de segurança pública do país, a idéia de inimigo interno, oriundo dos tempos da ditadura militar, bem como na própria sociedade, que clama por mais policia como sinônimo de mais segurança, e as favelas nesse contexto são culpadas por antecedência até que se prove o contrário.

Essa construção histórica tem um perfil definido do elemento suspeito, ou seja: jovem negro, mulato, de comunidade. Logo, O estereótipo do “marginal padrão”, também incorporado pelo senso comum da sociedade brasileira. Vale lembrar, que o próprio rapper MV BILL, mesmo depois da visibilidade nacional e internacional já passou por constrangimentos idênticos, sofrendo violência psicológica e moral sendo ofendido por policiais que faziam uma ronda de rotina, sendo agredido com termos como “macaco” por conta da cor de sua pele. (Leia matéria de 2001)

Como essa abordagem faz parte de um processo cultural enraizado nas forcas de segurança (apesar da alegação de que isso é um fato isolado) sempre vem a tona. Logo, ele se torna uma constante, já que a atitude pessoal do policia se recai sobre a instituição responsável pela orientação, recrutamento e formando esse que teoricamente seria o guardião da vida e dos direitos, não o promotor do desrespeito aos direitos civis e o abuso de autoridade.

Ontem o jovem Rodrigo Felha, também morador da Cidade de Deus, membro da CUFA, cineasta e representante dessa instituição no filme 5xFAVELA, que atualmente está no Festival de Cannes, passou por constrangimento semelhante ao sofrido por MV Bill, neste sábado (15/05/10), Felha foi humilhado, ultrajado e ainda coagido a não prestar queixa sobre o fato ocorrido.
Diante da impotência e o receio de represália, Rodrigo Felha ligou para o rapper MV BILL para solicitar apoio, que de imediato acompanhou Felha até o Distrito Policial, onde a queixa foi devidamente registrada.
Quero aqui fazer um destaque, essa não é a polícia que queremos, como também não acreditamos que isso seja orientação do Governador Sergio Cabral ou do Comandante da PM, ao mesmo tempo queremos sair do caminho comum da simples denúncia e punição do policial autor dessa arbitrariedade, pois, para nós da Cufa, isso seria muito fácil, no entanto seria como enxugar um chão molhado e deixar a torneira aberta, pois a cultura dominante autoritária que carrega o estereótipo das favelas e seus habitantes como humanos (sem direitos) permaneceria, mesmo com o policial punido.
Para quem não sabe o Felha é o jovem que filmou o documentário Falcão – Meninos do Tráfico, que parou o Brasil em 2006, onde significativamente através da sua lente pautou os temas: criminalidade, juventude e violência para o país. Por coincidência estou em Brasília discutindo e elaborando o projeto “ Os Invisíveis” que trabalhará com jovens atualmente só enxergados pelo poder público em ações policiais repressivas.
Retorno ainda hoje de Brasília e pedirei uma audiência com o Governador Sergio Cabral, para deixar claro que esse fato não pode colocar em “xeque” o projeto das Unidades de Policia Pacificadoras, mas por outro lado mostra que alguns pontos precisam ser revistos.

E como sugestão, iremos propor ao governo do estado uma parceria com a CUFA, onde a última fase de treinamento e qualificação desses policiais, seja feita em parceria com instituições das favelas onde esses profissionais irão atuar.
Pois é fundamental que os policiais conheçam cada palmo desse território, porém, tão importante quanto conhecer, é reconhecer os sentimentos das pessoas que habitam esse território.

Em tempo: Acabo de entrar em contato com Felha que esta no aeroporto a caminho do Festival de Cannes e o mesmo concordou com a criação de um projeto, e ainda sugeriu que a coordenação seja feita por ele e pelo policial em questão.

Rodrigo Felha ao lado de sua namorada e MV Bill, logo após registrarem ocorrência.

O top 10 dos Meus 50 tops

Hoje eu acordei meio bolado, abri meu e-mail e tinha um recado mais bolado ainda, era da Quevedinha, me cobrando o artigo do site da cufa dessa semana. Ela não sabe que estou sem tempo e sua incompreensão e sua falta de sensibilidade, não me deixará em paz se eu não escrever algo e rápido.   

Bem, eu tenho duas alternativas, colocar a cabeça pra funcionar, o que é lógico, o mais difícil ou entubar nela uma ratatuia qualquer, ou seja, inventando uma texto meia boca, que é, o caso aqui, pois resolvi para ganhar tempo fazer uma reflexão sobre as 10 músicas que marcaram a história do rap no Brasil segundo os meus escolhidos.   

Escolherei 50 cabeças e vou perguntar a elas quais são as 10 melhores músicas do rap brasileiro e consequentemente as 10 musicas que marcaram suas histórias.   

Ao final do processo saberemos quais as músicas que fizeram a cabeça das gerações do rap nacional. É lógico que você vai ter a chance de contestar ou concordar com as opiniões, que certamente não representará o pensamento do movimento, mas que por outro lado representa sim uma parte muito expressiva dele.   

Acesse o site: WWW.CELSOATHAYDE.COM.BR  e acompanhe.

Envie sua sugestão clicando aqui  


Respeite o Hip Hop

Essa semana eu preferi não escrever para o Blog, mas deixar fluir … leia o que o Luiz escreve, nós fomos os únicos a responder os ataques do senhor Mainardi, oficialmente, vejam que ele citava nome de bancos, empresas, ministérios, formula 1 , Indy, enfim… mas o que fica registrado é que se essa confusão criada por esse senhor só recaiu sobre nós, então é sinal de que a credibilidade por aqui não está faltando . Boa leitura
Celso

“Tiro no pé”
Reforma do Estado e Cultura Política
Respeite o Hip Hop

Luiz Eduardo Soares

Antropólogo e Cientista Político

A crença dominante é a seguinte: para construir um país mais justo, com governos mais eficientes, com menos corrupção e violência, é preciso punir mais e com penas mais longas, o que, por sua vez, deve ser precedido pela promulgação de leis que ampliem os mecanismos de controle sobre a sociedade e o Estado. Quanto a este último, o senso comum diz que é necessário inibir desvios de conduta, impondo regras rígidas para que seus atos se tornem mais compatíveis com o respeito ao interesse público.

Em tese, soa perfeito. Na realidade, não é o que acontece. Tomemos o caso do Estado e da extensa e meticulosa legislação a que se submete o executivo, em todas as esferas –federal, estadual e municipal. Cada nova lei que visa impedir a transgressão provoca, paradoxalmente, a qualificação dos criminosos e a valorização do crime, tornando-o mais atraente. O interesse transgressor não cede ante a nova barreira, mas é levado a sofisticar seus procedimentos e refinar o preparo técnico de seus “operadores”. O cálculo de custo e benefício acaba compensando, porque, se o aumento do risco encarece o crime, o preço cobrado a quem contrata o serviço transgressor também se eleva, tornando o negócio mais lucrativo. Em suma, na medida em que se expande a malha de controle, cresce a disposição de transgredi-la e se aprimora a capacidade de fazê-lo. O tráfico internacional de drogas e o prosaico contrabando, o teatro das licitações e as leis sobre convênios são exemplos conhecidos.

Depois de ter passado os últimos dez anos atuando nas três esferas do executivo, posso dar o testemunho de que o que parece lógico e quase indiscutível, quando se vê de fora, é irracional e destrutivo, visto de dentro. É isso, mais do que as diferenças ideológicas, que explica o choque freqüente dos gestores públicos contra membros do Legislativo, sintonizados com o senso comum das ruas, mas ignorantes das armadilhas do controle normativo (e do aparato institucional que lhe dá suporte e conseqüência). E é por isso que quando as oposições chegam ao governo adotam as soluções que antes criticavam. Não é uma traição a princípios, mas a indispensável adaptação a uma realidade imperiosa, que castra sem piedade a criatividade e a eficiência, produzindo governos abúlicos sem que a corrupção seja sanada. Um exemplo: as diversas modalidades de terceirização. Em teoria, trata-se de um mau caminho. O melhor seria que o Estado funcionasse, valorizasse seus profissionais, garantisse condições adequadas de trabalho e gestão. Mas os governos retrocederiam ou fechariam as portas se tivessem de renunciar aos convênios que terceirizam, quando não privatizam.

Para falar francamente: governar é quase inviável. Ser eficiente, no governo, é inviável, salvo nas áreas em que a sobrevivência nacional abriu picadas para a oxigenação –a Fazenda, o Banco Central e alguns poucos setores, nas distintas esferas. O processo de democratização, gradualmente, com o propósito de prevenir o autoritarismo e de apagar a memória sombria de Leviatã, amarrou o Estado em uma camisa de força. Atire a primeira pedra quem assumir a responsabilidade de governar o país sem medidas provisórias, quem se comprometer a prover os serviços públicos sem recorrer a organizações sociais, Ocips, Ongs ou aos mediadores internacionais. Os críticos da terceirização e da privatização não conhecem a realidade –se assumirem o poder estarão condenados a repetir seus adversários.

A conseqüência desse argumento deve ser o fim de toda a regulamentação e de todo bloqueio normativo? Deve ser a capitulação e a entrega do Estado à voragem privatista? Deve ser o triunfo do laissez-faire, justamente quando o liberalismo anárquico naufraga, tragado pela crise mundial, gerada pela desregulamentação irresponsável? Não. Nada disso. É necessário, em nome da justiça e da democracia, defender o Estado e fortalecê-lo, mas isso não se faz bradando velhos slogans e tapando o sol com a peneira. Para revigorar o Estado, impõe-se transformá-lo, profundamente, liberando-o de amarras artificiais e apostando mais na transparência, na mídia livre, na participação social e nas eleições do que no aparato controlador. Não podemos continuar nessa via: para proteger a honestidade, estamos alimentando a corrupção; para salvaguardar o Estado dos interesses privados, estamos liquidando sua capacidade administrativa.

Agora, o outro lado da moeda: é nesse contexto que devemos entender as dinâmicas em curso na sociedade. O fisco sufoca os empreendedores. O empregado negocia soluções informais com seu patrão, porque precisa trabalhar. O pequeno empresário tem de escolher: dar três empregos informais ou um, formal. As boas instituições são as que convertem vícios privados em virtudes públicas, e não as que, inutilmente, se devotam a corrigir os indivíduos. Como julgar as micro-decisões dos milhões de brasileiros que, na selva dos controles normativos e ante a voracidade da exação fiscal, encarando o desafio que é sobreviver, buscam opções menos onerosas e mais econômicas, sem cometer qualquer crime? Nesse ponto, creio que todos podemos atribuir o verdadeiro significado ao ato de Celso Athayde e MV Bill: negociar, licitamente, os direitos autorais de um de seus livros com uma empresa legalmente instituída (o que ela faria em outras áreas de atuação não se tinha como saber) para que ela represente os autores no contrato com a editora, fazendo com que se tornasse possível recolher impostos como pessoa jurídica, em vez de como pessoa física. Qual o crime?

Extraordinário o cinismo de setores da grande imprensa. A revista Veja, por exemplo, célebre por sua “isenção e objetividade” –aplicadas numa versão muito peculiar de ambas as qualidades–, abriga um colunista que se dedica ao esporte do tiro ao alvo –na semana passada praticou tiro ao negro. Faz um grande sucesso transgredindo algumas regras básicas do jornalismo civilizado. Nada original. A grosseria sempre foi um filão fecundo para a exploração comercial e a difusão de valores anti-democráticos. Sobretudo a grosseria chique, blasé, arrogante, elitista e pseudo-intelectual. O clichê da direita continua vendendo: por que mudar? A idéia não é essa? Vender e desmoralizar os adversários sem direito de defesa? Pois a última rodada de linchamento, promovido pelo arguto escriba com aquele conhecido requinte de sadismo –que se compraz em apontar dedos para sentir-se puro e afirmar-se superior–, atingiu MV Bill e Celso Athayde. Simplesmente, repita-se, porque recorreram a uma empresa para representá-los em um contrato com uma editora. Essa empresa, anos depois, tornar-se-ia objeto de denúncias e investigações. Que responsabilidade poderiam ter, em qualquer eventual ilícito por ela cometido, aqueles que negociaram com ela, honestamente, licitamente?
O mais inacreditável vem agora: sabem quem tem contratos com a tal empresa? A editora Abril, que publica a revista Veja.

Ora, de duas uma: ou todos os que negociaram com a tal empresa tornaram-se automaticamente cúmplices dos ilícitos que ela porventura tenha cometido, e nesse caso a editora Abril é tão culpada quanto os cidadãos que ela acusou; ou ninguém pode ser acusado pelas possíveis faltas cometidas por terceiros, só por ter mantido alguma relação contratual, de forma lícita, com o suposto faltoso. Neste último caso, aqueles que a revista acusou merecem desculpas públicas.

Essa conclusão é tão clara que mesmo o mais parcial e astucioso dos jornalistas teria de admiti-la. E teria a obrigação moral de divulgá-la. Mas falar em moral nesse ambiente envenenado pela ideologia e a manipulação arbitrária não faz mesmo sentido. Nosso debate público anda tão pobre e sujo que mesmo o gesto mais abjeto acaba naturalizado. Ainda bem que existem os políticos para encarnar todo o mal. Se não fosse assim, teríamos de discutir ética pública a sério, sem bodes expiatórios.

Parece claro que a hipótese de Bill vir a ser candidato ao Senado, mesmo sendo fantasiosa, foi suficiente para despertar a cólera desonesta dos que mal conseguem disfarçar o racismo e o ódio –e/ou inveja– que sentem do sucesso de uma liderança popular legitimamente construída e de enorme potencial mobilizador. A doença paranóica do controle contagia. Use sua desconfiança com moderação.

Luiz Eduardo Soares

Nota de esclarecimento

Com relação à citação do nosso nome pela revista Veja, na coluna “O hip hop da Petrobras” de Diogo Mainardi esclarecemos que a edição de nosso livro “Falcão: Mulheres e o Tráfico” não teve nem tem nenhum envolvimento da Petrobras, o verdadeiro alvo da publicação.

Seguindo normas do mercado, recorremos à uma produtora privada legalmente estabelecida ( a R.A. Brandão Produções Artísticas ) na qual não temos nenhuma participação societária ou financeira, para nos representar junto a uma editora privada legalmente estabelecida ( a Objetiva ), num processo
que não envolveu dinheiro público.

Como se sabe, empresas especializadas representam os artistas nas atividades ligadas a direitos autorais, arrecadação e encargos.

Assim como não nos cabe acompanhar o relacionamento dos nossos fornecedores com terceiros, não faz o menor sentido estabelecer qualquer conexão entre essas partes.

Toda a documentação contratual, inclusive declaração de imposto de renda fruto desse contrato, está à disposição de eventuais interessados.

MV Bill e Celso Athayde

COTAS; a justiça vai ter que responder a cada cidadão preto brasileiro

Celso Athayde

Ao assistir um debate na TV bandeirantes, senti a necessidade de expor minha visão tanto sobre a estrutura do debate, como sobre seu conteúdo, mesmo que o primeiro esteja estratégica e intimamente ligado ao segundo. Mas para meros fins de exposição, começo pela estruturação da mesa. Antes de tudo, é preciso ser dito que não dá para ir a debates sobre o tema das cotas raciais, apenas porque fomos convidados, é preciso estabelecer regras, se não vamos ficar nesse debate como um leão na jaula, sendo instigado por vários caçadores. Era esse o sentimento que eu tinha ao ver esse debate. Defendendo as cotas raciais estava o respeitável e amigo Frei Davi, do outro lado, contra as cotas, estava toda a TV Bandeirantes, todos os jornalistas que compunham a mesa e mais o sociólogo Demétrio Magnoli, por quem tenho grande admiração e respeito. O fato é que, o que devia ser um debate de idéias virou uma tentativa de constrangimento ao nosso amigo Frei Davi.  De imediato eu “imaginei ” como pode ter sido feito o convite:

-  Alô, senhor Frei Davi?

- Sim, é ele.

- Como vai, sou fulano, produtor da TV bandeirantes, queremos fazer uma discussão sobre cotas num programa de relevante audiência e queremos convidar o senhor por ser um militante da causa e ser muito respeitado.

-  Sim, claro que vou.

E não só foi, como mandou muito bem. Porém, acho importante que pessoas que lutam pela causa tenham em mente que é preciso aceitar tais convites mediante o estabelecendo condições. É necessário esse senso de responsabilidade, porque do contrário fica uma misto de desrespeito com manipulação que fica até agressivo ao espectador, o que deveria ser uma preocupação da emissora, mas não o é, e assim, o único defensor do tema pode acabar ficando colocado como alguém apenas pautado pela indignação, que é calculadamente provocada, é lógico.

Vamos ao conteúdo do debate, que tem como pano de fundo a substituição dos atuais programas sobre cotas, por um programas unificado que vem sendo discutido no congresso nacional, que colocaria 50% de cotas em todas as universidades públicas do país, mas sem divisão por segmentos. Discussão essa que é praticamente desconhecida do grande público, por mim inclusive, mas vamos escurecer um pouco a questão.

Com os programas de cotas, descobriu-se que nas universidades públicas entra uma grande porcentagem de alunos das escolas públicas: entre 30% e 40%, mas em quais cursos? Naqueles considerados “pouco nobres” como Pedagogia, História, Geografia, etc. Dificilmente entra aluno pobre ou negro pobre nos cursos considerados “nobres” como (direito, medicina, odontologia, etc.). Apenas para não dar margem a distorções tão comuns quando se trata deste assunto, cabe ressaltar que não faço juízo de valor dos cursos, utilizo apenas expressões do dia-a-dia de todos nós. Todas as profissões e formações devem ser valorizadas, inclusive aquelas que não necessitam de um canudo para afirmá-la. Bem, mas onde de fato se incluiu negros e pobres foi onde houve a separação entre as cotas raciais e sociais, e não apenas com as cotas sociais, como muitos querem afirmar, sob o argumento de que o problema no Brasil é social e não racial. Amigos, os problemas no Brasil são todos os problemas! Cito exemplos: Na UFPR (Universidade Federal do Paraná) que optou por cotas específicas, sociais e raciais, nesse ano entraram entre 15 e 20 alunos negros nos cursos considerados “nobres”. Ao todo, desde 2005 são aproximadamente 100 a 130 alunos negros e pobres nesses cursos. A universidade pratica a seguinte política de inclusão: 20% para cotas raciais, 20% para sociais e reserva de vagas para indígenas e 60% para o geral. As vagas que sobram das cotas (e sempre sobram nas cotas raciais, nas sociais não) retornam para o geral. Ou seja, sempre tem mais de 60% de vagas para o geral.

Sou radicalmente contra as cotas, tanto quanto meu amigo e ídolo Caetano Veloso e outros amigos e amigas que também o são.  Todos somos contra as cotas em via de regra ,   Bem, a discordância que tenho deles  é pela forma ,  pois não dá para ser contra algo e não por nada no lugar , e ai é aonde entra a contradição, se não temos nada de concreto para oferecer aos negros  além de um sorriso e frases de esperança então que venham as cotas ,  minha divergencia se relaciona apenas com os passos que precisam ser dados para que haja algum grau de paridade entre a formação e inserção dos negros na sociedade, e se não for através das cotas como será ?  se existe algum gênio entre nós que tenha essa resposta por favor, fique a vontade . 

 

Porém, não dá para ficar atacando as pessoas que são contra as cotas como se esse fosse o assunto mais trivial do mundo e o mais fácil de ser compreendido , apesar de  supostamente vivermos  democracia, não podemos patrulhar a opinião dessas pessoas,  o fato delas  discordarem de nós  não altera nosso  valor, nem o delas . Nossa luta tem sido sim convencê-las do contrário, e quantas pessoas  já   foram capazes de perceber e entender o nosso sentimento? Muitos né não ?

Bem, nossa diferença em relação a  eles  que são contra e nós que somos a favor vem se dando na forma e no modelo que defendemos para  que haja algum grau de paridade entre a formação e inserção dos negros na sociedade.

Pra mim é inconcebível que nós, chamados de mestiços como todos brasileiros o são, mas que temos na pela a cor preta, e não a branca, fiquemos esperando passivamente as soluções chegarem. Já esperamos muito, estamos esperando desde 1888, e as soluções não chegaram, se não botarmos o pé na porta, incomodando e criando desafetos pelo caminho, o que será inevitável, podem ter certeza de que elas não vão chegar nunca. A educação igual para todos, que seria o caminho ideal, parece que não chegará nunca.

Os que se dizem contra as cotas acham que o caminho é exatamente esse, continuarmos a esperar que haja uma reformulação no ensino de base para que nossa juventude preta, que de acordo com todas as estatísticas são os que sempre estão à margem (lideram as taxas de desemprego, presidiários, mortalidade urbana, salários mais baixos etc.), tenha só aí a chance de concorrer em paridade com os filhos da elite em busca de uma formação qualificada. Cabe dizer que, em sua esmagadora maioria, essa elite de hoje tem o mesmo perfil desde 1888, ou seja são brancos de boa fé e muito bem intencionados. E nada mais natural que o sejam, já que apenas fizeram perpetuar a riqueza e o domínio, sem querer abrir mão de nada, o que é, repito, natural, para eles. No entanto, finalmente a sociedade brasileira chegou num estágio de ir contra a essa naturalidade, de manutenção de tudo como sempre foi, com a felicidade parecendo caminhar apenas para os braços de uma parcela da sociedade cuja a cor é “por acaso” clara.

Estão sendo pensadas e praticadas formas concretas de reparar uma política social que anteriormente se pautou sim pelo recorte racial, mas que agora, quando deseja fazer o mesmo para possibilitar a ascensão do negro, aí os inconformados não aceitam e gritam, ou organizam debates  democráticos como esses, que além de  estratégicos, seriam engraçados, se não fosse um fato trágico para nós.

No entanto, se estes senhores estivessem um pouco mais atentos veriam que se não abrirem as cotas agora, elas serão invariavelmente buscadas de outras formas, que podem ser mais dolorosas. Os números crescentes da violência provam isso. Quem mais mata no Brasil? São os jovens negros, fruto do acaso?  Não, é apenas a ordem natural dessa pressão imposta carinhosamente em nome de uma suposta democracia racial. Os jovens pretos, fudidos não aceitam que somente os filhos de uma classe pode ser feliz, eles também querem consumir, também são atingidos pelo apelo publicitário ininterrupto que vende sonhos, amor, felicidade, e eles querem isso também, querem fazer parte dessa classe, querem ter acesso a essa cota universitária que estabelece que só os brancos tenham vez. Ou seja, as cotas já existem, estamos só tentando  ser incluídos nelas, pois acreditamos que temos direito, e temos mesmo, ou não? Então, as cotas podem acirrar os ânimos, mas a falta das cotas também vai acirrar, pois a negrada tá de saco cheio dessa conversa antropológica de conglomerado de mídia que transbordam democraticamente todos os dias suas posições de que a política de cotas é um câncer social, talvez seja, mas para quem está agonizando no CTI e nunca teve nada, qual a diferença?

Não acho que as pessoas que defendam a permanência da espera sejam “do mal”, acho que elas simplesmente veem a vida por outra lógica, que é muito distante da que eu vejo, tanto que hoje recebi um  e-mail  de um deputado respeitável e muito humano, criticando as cotas, dizendo que somos um país multicolorido e feliz, que se as cotas específicas forem ampliadas e não reformuladas, pela primeira vez teremos preconceito racial no Brasil. Ou seja, não posso crer que ele seja mal intencionado, mas apenas que se comporta com alguém insensível, nada mais.

Ratifico que sou totalmente contra as cotas, mas enquanto ninguém vier com uma solução, ou mesmo com um paliativo, eu só posso crer que a política de cotas é a única alternativa para quem está na parte baixa dessa roda gigante enferrujada. Ela não vai rodar se ficarmos esperando que o modelo social e econômico seja justo e repare o processo anterior de injustiça social e racial. Se isso não foi feito até hoje, não há quem me faça crer que será diferente em algum dia, tal discurso, aliás, só me faz crer no contrário.

Nessa discussão, há aqueles que dizem que o conceito de raça foi cientificamente superado e que a luta deve ser por uma sociedade pós-racial. Eu acho lindo isso, de verdade, seria lindo que eu não precisasse estar aqui escrevendo sobre isso, por acreditar que todos somos iguais e que só existe uma raça, a humana. Lindo! Mas mesmo os que levantam essa bandeira, sabem (ou veem) que a maioria dos meninos de rua, daqueles que moram em condições precárias em favelas e periferias, dos que recebem os salários mais baixos e as funções e menos qualificadas são os negros. E pra mim fica nítido que isso é fruto direto de séculos de escolhas políticas, que me fazem ver todos os dias que uns são mais iguais que outros.

Se a questão passa pelo uso da palavra “raça”, que deveria ser substituída por etnia ou outra similar, ai eu nem começo a conversa, porque não é discussão de termos teóricos que me interessa e sim a resolução de uma situação com a qual convivo desde sempre, na prática, na pele e não no plano teórico. Seja usado o termo que for, o que os intelectuais considerem mais adequado, isso eu não discuto, concordo com todos que quiserem usar, o fato é que todos os anos o IBGE nos mostra que quem ocupa as posições inferiores em todos os índices são os negros e não os multicoloridos, proponho inclusive que esses gigantes processem o IBGE ou não aceitem divulgar suas pesquisas. E não sei se estão lembrados mas a era pós-racial, que tanto louvam e que Obama seria o auto-representante legítimo, só aconteceu nos EUA depois de anos de luta dos negros, que buscaram inserção e não ficaram esperando que os modelos sociais os contemplassem algum dia. Eu nem queria lembrar isso para não ser acusado de querer imitar os norte-americanos, até porque não se trata disso, só estou usando os exemplos usados pelos próprios anti-cotistas.

Hoje vi na televisão que um negro deve assumir a direção da NASA, e que será o primeiro negro a assumir tal papel. Nesses momentos, tem negro. Nenhuma emissora de TV diz “Um multicolorido, um mestiço, vai assumir a NASA”. Porque sabem identificar muito bem, quando querem, os negros. Nesse caso, ainda bem, é para algo muito positivo, porém, quando falam que agora é o primeiro negro, isso significa que o “homem” já foi, agora é o negro, então mais uma vez sugiro que essas emissoras e veículos não façam menção a esse detalhe irrelevante, já que todos somos humanos.  Vejam, não tem nada de sofrido nesse discurso, só quero propor uma reflexão sobre o tema que é muito polêmico mesmo.

Não sou defensor da política racial americana, do apartheid ou mesmo do antagonismo entre brancos e negros, não busco revanchismo, preconceito ao contrário, ou o que possa ter ligação com essa idéia, mas o fato é que, sobretudo, não quero a manutenção do preconceito atual, e se nada de concreto e imediato for feito para possibilitar que o negro ascenda socialmente, continuaremos sempre nos vangloriando de nosso país mestiço, da mistura e da convivência pacífica entre cidadãos de todas as cores, mas na hora que cada um for pra sua casa, alguém sempre vai entrar no seu carro, buzinar pro porteiro do condomínio e subir de elevador, e esse “alguém” continuará a não ser o negro. Se nada for feito, as estatísticas do IBGE continuarão tendo no topo da pirâmide os brancos e na base os pretos. Eu não quero a inversão disso, quero, ao menos, a possibilidade de que seja formada uma outra figura geométrica, em que eu veja que não apenas poucos (em sua maioria branca) sejam os privilegiados em todos os índices, e que tantos na base (imensamente de negros) sejam os miseráveis.

Os que vivem da explanação teórica da discussão, escrevendo livros (lembro que Bill e eu somos os negros que mais venderam livros no Brasil, já que o Brasil considera o  Machado de Assis mulato, como praticamente todos os livros de literatura o definem. Mas como o conceito literário não se aplica a nós, somos processados por apologia ao crime por esta obra. E se escrevêssemos livros sobre facções criminosas como PCC ou Comando Vermelho estaríamos presos hoje? Mas isso não é preconceito, de forma nenhuma, é a regra do sistema que pensa todos como iguais) formatando debates ou sendo “a voz” do especialista sobre o tema quando alguma TV o convida para o comentário do tele-jornal, me parecem viver em outro país que não o que vivo. Pois para algumas destas pessoas, o fato de termos todas as gradações de tonalidade de pele no Brasil, sem que haja “conflito”, parece que automaticamente exclui a possibilidade de haver racismo. Não entendo como isso pode ocorrer, não entendo mesmo, e, sobretudo, não entendo que suas argumentações contra as cotas partam do princípio que, com elas, estaríamos instituindo a discriminação, que, de acordo com seus pontos de vista, nunca fez parte da sociedade brasileira.

Como já disse, acho natural que cada um defenda o que acredita, utilizando os argumentos que têm pra isso, seja um debate na televisão ou uma coluna no jornal, mas como não quero acreditar que os senhores que o fazem tenham a intenção de ofender a inteligência do público, colocarei dessa forma: não vamos brincar de mentir, senhores! Não vamos negar o racismo que sempre existiu e que existe em nosso país.  Daqui a pouco, estarão negando que no Brasil o racismo era política oficial de governo, vão negar inclusive a escravidão, o que por sua vez, está na origem de tudo o que vem sendo discutido hoje.

Quem tem a tonalidade de pele preta sabe com absoluta certeza que há preconceito racial sim, e não é preciso grande esforço para provar isso. O ato corriqueiro de entrar numa loja, que nem precisa ser de padrão tão alto, revela na quase totalidade das vezes, uma diferença mais do que visível por parte do tratamento dos vendedores, se esse cliente for branco ou for negro. Essa convivência pacífica, tão festejada pelos sociólogos, antropólogos e demais acadêmicos distraídos contém o racismo velado, à moda do homem cordial brasileiro, que fica nas entrelinhas, e que, justamente por isso, é o mais difícil de ser combatido. Se com as cotas o preconceito “aparecer”, garanto aos senhores que para nós não será muito diferente do que já é, e acho que vale a pena comprar o pacote, já que dessa vez viria algo de bom, com mais negros pelos corredores das faculdades federais, dentro das salas dos cursos nobres. Ainda que no início eles cheguem de ônibus ou trem enquanto a maioria dos alunos estaciona seus carros importados dentro do campus das faculdades federais, eu compro o pacote! Preconceito todos nós já sabemos o que é, podendo enfrentá-lo ou não (pois quando um currículo é descartado por ter uma foto 3×4 de um negro, esse nem ao menos pode se colocar diante de uma entrevista), portanto, não tememos que ele “surja” com as cotas. Entendo que os senhores e senhoras temam, porque não sentem, não passam, não vivem e imagino que achem um absurdo o que estou escrevendo. Fico feliz por essa preocupação dos senhores pelo Brasil ou talvez pelos seus filhos, só que é bom lembrar que somos brasileiros e também temos os nossos filhos, e as nossas preocupações.

Além destes que negam a existência do racismo, há outros mais realistas, que acreditam que haja o preconceito racial, mas não admitem que nenhum conhecido seu seja racista. Eles próprios então, de maneira nenhuma. Outro dia num debate, o Preto Zezé, o coordenador internacional da CUFA, perguntou a platéia branca que discutia o racismo:  -  Quem acredita que existe preconceito racial no Brasil? Todos levantaram o braço, todos e todas. Em seguida, ele perguntou: – Quem aqui é racista?  E, lógico, ninguém levantou a mão. Racista são os outros, eu não. Infelizmente amigos, sociedade pós-racial, é utopia. Me emociono ao ver Obama falar, mas sei que ainda estamos longe do sonho de Luther King atingir a maior parte dos negros. We can, but isn’t gonna be that easy. E aqui, na terra da tolerância e do racismo velado que não mostra a cara para que possamos reagir a ele, será mais difícil ainda.

Bem, volto a dizer que no geral sou contra as cotas e todos os negros que conheço também são, mas enquanto elas forem necessárias como reparo de injustiças históricas e não me apresentarem outro mecanismo real e factível de inserção dos negros na sociedade, sou a favor. Para finalizar, quero dizer que todos os negros do Brasil apontam apenas uma emissora de televisão como protagonista de uma postura anti-cotas, e isso não é verdade, neste caso, a Band representou e muito bem a classe que é sua base, colocando inclusive estratégicamente  imagens de negros dando depoimentos a favor  das cotas e depois contra as cotas, com uma edição impecável, reproduzindo a lógica antiga de expor publicamente nossas “contradições”, até ai foram perfeitos, só não nos convenceram, assim como o choro dos grileiros não nos convencem ao jurar amor pela reforma agrária e pelos bóias-fria.  O fato é que  todos os conglomerados de mídia, de todas as tendências pensam da mesma forma, quando se tratam das cotas para negros. Só falei da Band porque foi lá que eu vi o Frei pagar seus pecados e em alguns momentos ser desrespeitado, mas não é só lá,  se uma coisa está unindo a parte alta da  pirâmide desse país é esse susto que vai virar realidade.

 

Amigos não tem jeito, a fraternidade e o amor haverá de prevalecer, e acreditamos que ou vocês vão nos convencer que as cotas são um mal para a sociedade, ou então vamos convencê-los de que é a nossa unica saída, pois uma  coisa é certa, ou dividimos todas as oportunidades e riqueza que esse país gera ou seremos obrigados a continuar dividindo as conseqüências da miséria que a elite  vem gerando ao longos dos anos.   Resumo, minha proposta é para que todos os  negros brasileiros busquem seus direitos , com equilibrio e ternura , simplemene usando  a lei.  Convoco todos os pretos e  pretas desse pais para entrarem  com ações  na justiça em todas as cidades desse Brasil  e vamos descobrir se todos os juízes discordam de nós .

Os gigantes podem nos matar, mas só deus pode nos julgar.

Assita ao vídeo que foi postado e 3 blocos:

Parte I
http://maisband.band.com.br/?CodMedia=21389

Parte II
http://maisband.band.com.br/?CodMedia=21391
Parte III
http://maisband.band.com.br/?CodMedia=21392

Celso Athayde é Articulador Nacional da CUFA

A paz que eu não quero ter

Salve … Salve .. Salve …. essa é a minha estreia. Eu sempre relutei em ter um blog, pois tenho resistência com toda e qualquer idéia de exposição, tenho dificuldade com as criticas e mais do que isso, não tenho é paciencia com as lamentações e resmungos, mas cá estou eu, abrindo essa nova história, aonde vocês, amigos ou desafetos possam discutir as nossas idéia e ideais, uma coisa é certa, estarei aqui bem acompanhado de vocês e das minhas parceiras colaboradoras Ana Letícia, Ana Sabagg e Joyce Santos. Então vamos logo ao trabalho ….

Bem, na última semana, de 14 a 17 de abril, aconteceu no RioCentro a Latin America Aero & Defense 2009 – (LAAD). Eu estive lá no evento com alguns amigos, e como não vi na imprensa o destaque que considero adequado, resolvi escrever.

Não sou o dono da verdade, só da minha, assim como todos têm as suas. E mesmo sendo esta minha verdade, cercada de questionamentos, pois considero verdades absolutas um erro fatal, este será um espaço de expor as idéias que constroem o que agora, neste exato momento, me parece ser o mais próximo que posso chegar de uma verdade.

Espero poder propor alguns assuntos para aqueles que por aqui passarem possam refletir, vamos abrir os trabalhos com o seguinte texto:

A FEIRA DA GUERRA – A PAZ QUE EU NÃO QUERO TER

Armada no pavilhão 3 da mesma maneira como se fosse a “Feira da Providência”, com estandes de diversos países, essa “feira” também reuniu fabricantes de todos os lugares do mundo, dentre eles Israel, Rússia, Brasil, EUA (com cerca de 100 empresas), França, Itália, Índia, Paquistão e por ai foi, mas no lugar dos artigos de artesanato, decoração e comidas típicas, os produtos que estavam a venda nos estandes eram pistolas, fuzis, munição, mísseis, minas, gás de pimenta, equipamentos de visão noturna, aviões, helicópteros e tanques de guerra, e mais todos os outros artigos que se possa imaginar que são necessários para se fazer uma guerra, seja ela uma guerra de trincheira, tecnológica, ou uma mais próxima geograficamente de nós, a “guerra” das favelas e cidades brasileiras.

Todos os produtos estavam expostos e à disposição dos visitantes para serem “experimentados” e claro com vendedores ou expositores atenciosos, dispostos a esclarecerem qualquer dúvida sobre como determinado artigo deveria ser manuseado para que obtivesse seu melhor desempenho. Em muitos dos estandes havia também as bonitas modelos de agências de eventos promocionais (como aquelas que vão à feiras de lançamentos de automóveis) para recepcionarem os interessados e entregarem souvenirs como chaveiros com os nomes das empresas fabricantes e os panfletos informativos, materiais supercompletos e com acabamento impecável.

Quem por acaso notou que na última semana algum dos seus “amigos” de de orkut, my spaces, facebooks e etc postaram algumas fotos posando com pistolas, fuzis, ou próximos a mísseis podem ter certeza que eles passaram por lá, pois qualquer visitante podia pegar uma pistola, dentre as muitas sobrepostas nos balcões de empresas como a Taurus, fingir fazer a mira e apertar o gatilho. Via-se pais e mães orgulhosos de seus filhos por estarem portando armas enormes na na presença de tantas autoridades e flashs, mas sobre tudo na presença da LEGALIDADE. A quantidade de pessoas que faziam poses com cara de tigre era enorme.

Pela total naturalidade dos interessados todos pareciam estar no balcão da padaria, pedindo 3 pãezinhos ao seu Manoel ou então na fila de frios do supermercado quando se pede uma prova de queijo minas para saber se tem pouco ou muito sal, só que atrás do balcão não estava o seu Manoel, e sim as grandes indústrias mundiais fabricantes de instrumentos bélicos, que fomentam as guerras pelo mundo. O que contava não era o teor de sal do queijo, as pessoas (homens em 99,%) se orgulhavam ao experimentar e medir o quanto as armas se adaptavam em suas mãos ou seu corpo, falo de um instrumento feito para matar seres humanos, o que ali desde a organização, o tratamento da imprensa, a naturalidade da circulação dos visitantes pelos corredores parecia ser algo ou desprezado ou já totalmente internalizado como “o que deve ser feito”.

Dentre os visitantes havia grupos grandes da marinha, aronáutica, exército, com jovens aparentando ter menos de 25 anos, que circulavam animados pelos estandes, experimentando os artefatos e conversando com as belas recepcionistas, e vi também alguns poucos membros do BOPE. Esses grupos estavam devidamente identificados pelos uniformes, mas a maioria das pessoas eram “civis”, e havia também homens de terno e gravata, com aparência e postura dos chamados “homens de negócio”.

Para entrar na LAAD, era necessário apenas fazer o credenciamento pelo site ou lá na hora mesmo, na entrada do pavilhão no RioCentro. Para a imprensa, o processo era o mesmo. A imprensa que presenciei por lá estava representada apenas pelo canal do Exército Brasileiro e vi uma equipe de TV que a princípio me pareceu de japoneses. Pedi um cartão, e agora com uma rápida busca no google vi que se trata de uma Agência de Notícias, a Xinhua, instituição jornalística estatal da República Popular da China, o maior centro de distribuição de notícias e informações da China.

No release da feira, e em muitos dos materiais gráficos dos estandes, o “lema” se pautava pela apresentação das mais modernas tecnologias e estratégias existentes para a obtenção ou manutenção da SEGURANÇA e estabelecimento das DEFESAS nacionais.

Eu também estava lá, com meus amigos, durante o tempo em que circulei e presenciei todo esse “clima” do evento, na minha cabeça surgiam diversos momentos das filmagens do Falcão Meninos do Tráfico e da realidade das favelas de todo o país por onde passei ao longo dos anos, onde vi e vejo crianças de 10 anos (ou menos) em diante com armas nas mãos.

Foi impossível não ver a imagem que se formava na minha mente de que muitas dessas novas tecnologias para promover a segurança apresentadas no RioCentro acabarão tendo esse mesmo destino, indo parar nas mãos de crianças e jovens das favelas, causando a nossa “guerra” urbana de todo dia, e, do outro lado, estarão nas guerras oficias, nos arsenais dos israelenses, palestinos e povos africanos que se matam, se dizimam e provocam atentados matando milhares de civis. Mas ali, entre os homens de negócios que circulavam tranquilamente com suas pastas, nada o que estava sendo vendido parecia ter qualquer relação com essas tragédias. Com absoluta certeza, todos botaram suas cabeças no travesseiro e foram dormir tranquilos e muito possivelmente com alguns milhões a mais em suas contas-bancárias e/ou na contabilidade de suas empresas.

Diante disso, faço apenas 2 perguntas:

Essa é a forma que o mundo conseguirá ter segurança, se armando cada vez mais e “melhor”?

O combate à violência e o fim das guerras faz realmente parte da agenda dos governantes mundiais, como é declarado todos os dias nos jornais, ou as guerras urbanas e os conflitos entre países são apenas meros meios para aumentar e manter o todo o poderoso mercado de material bélico e imensa rede que o circunda?

Bem, eu não tirei fotos para ilustrar esse primeiro texto, não me senti avontade para isso, mas segue fotos desse importante e festejado evento e o link para que possam ter mais referências sobre a LAAD.

Link da LAAD:
www.laadexpo.com

Veja algumas fotos abaixo:

rio-laad-0472
rio-laad-0961
rio-laad-1342

Fotos: Iara Lee

Colaboram com este blog:

Ana Leticia
Ana Sabbag
Joyce Santos

Caindo no miolo!

Este é o blog oficial de Celso Athayde.

Celso Athayde e MV Bill retornam do Haiti.

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